terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pra fora da toca do coelho branco


À medida que estico um braço para o futuro, reviro-me dentro de minha casca de diamante e, sem querer, deixo escapar o eco de um sorriso cheio de pesar. Nunca imaginei que teria de lidar com uma ausência mais tangível do que o objeto que ela substitui: um ser que nunca foi. Ainda que a marca na pele – um X em alto relevo, mais rosado e brilhante que o resto – seja agora indolor, não pude evitar uma sensação de culpa por não vê-la mais sangrar. Um tipo internalizado de traição. Fútil e masoquista. Zonzo após o giro entre negações, desejos escancarados e a prática da indiferença, divirto-me com a ilusão de que as voltas estão chegando ao fim. Em meio às ações da auto-manutenção psicológica contínua, não me agarro mais a um nome e vértebras (estes agora desfeitos como a fumaça de um cigarro autografado por dois). Não há mais o que inalar. Trato de soltar. Largar o copo e me livrar do peso. Minha materialização neste plano está cada dia mais irreversível e já não sonho mais com tanta frequência. Motivações derivadas e destinadas ao real distanciam-se do ideal que já não é. Faço-me de brinquedo, deixo-me levar até ser puxado de volta por uma mola à qual meu tronco encontra-se preso. De volta à caixa com motivações circenses; um mundinho à parte que uma em sete vezes me basta, me renova. Não há mais palavras de areia movediça, tampouco.

Imagem: Never Let Go by ReyeD33

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sinestesia Fantástica



Mesmo imerso num mar de incertezas, ao passo que as cinzas são varridas de minhas penas pelo vento, como uma mariposa à noite, vejo-me atraído por uma luz azulada que poderá me eletrocutar. Mas talvez não seja noite. Talvez eu esteja em uma caverna e esse brilho venha de uma fresta no teto pela qual poderei escapar. Devo ficar atento à presença de vento também. Minhas asas cansadas já não têm tanta sensibilidade.

Ah! Que sabor terá o ar quente do dia, depois de uma noite tão longa e gélida? Que promessas estarão codificadas nas nuvens? Eu quero essa chuva sobre mim. Sinto-me preparado para essa sinestesia fantástica! Ver o cenário se distorcendo a minha volta, cobrindo longas distâncias em alta velocidade, de braços abertos, indo e voltando... a sensação de que nada é impossível... o conforto de ver as novas folhas de um verde luminoso lançando sua sombra sobre as que secam ao chão, sendo absorvidas e se transformando em nutrientes...

É verdade que, num piscar de olhos estou de volta à escuridão. Mas esta não é mais completa. E mais: estou no meu caminho para longe dela.

Pra ler ouvindo:

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Uma noite a mais, um mal a menos

Dormir, mais uma vez, enfim. O desejado repouso mais que um alívio para o corpo que pesa irredutível sobre os ossos, é uma trégua de mim mesmo. Ando chato ultimamente, muito preocupado, exagerando em todas as doses, esquecendo-me da sagrada homeopatia. Temendo a sombra lançada pelo tsunami de expectativas sobre o mundo e sobre mim, vou me ajeitando de um lado para outro do colchão, esperando o universo escurecer e silenciar ao meu redor. A inconsciência é doce e breve. Mesmo sabendo que o sol virá para acabar com a minha festa no dia seguinte, não consigo evitar o mergulho – e que mergulho! – no meu mindinho de perfeição onírica. Jack Sawyer queria saber por que a vida tem sempre de exigir tanto e dar tão pouco. Partilho de sua dúvida, mas estou me colocando numa zona de conforto sob meus cobertores. Agora eu quero simplesmente parar de fazer a coisa que eu faço mais do que respirar e dizer até logo aos meus numerosos pensamentos. Porque nada se resolverá nem se complicará enquanto eu estiver na cama.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

AEFIS - A Guerreira de Shenwe


                Liko corria o mais rápido que podia, subindo uma colina atrás de uma fera imensa. Estava cansada por causa das batalhas que travara contra alguns guerreiros anteriormente, além disso, seus poderes mágicos e sua vitalidade estavam baixos, mas se conseguisse completar essa missão com certeza evoluiria para algo muito mais poderoso. Empunhando seu cetro místico equipado com um tipo raro de Kirisaly, encarou o céu da noite e buscou nas estrelas o ânimo que começava a lhe faltar.

                Chegando ao topo da colina, a Guerreira Velkyr (sua categoria) ficou aflita por não ver sinal da fera que perseguia. Olhou para os lados e nada, virou-se de repente e tudo que viu foi a vasta extensão do Vale do Leste e suas centenas de elevações banhadas pelo brilho da lua.

Para onde foi aquele Razal?, pensou.

                Mas um som acima de sua cabeça a fez olhar para cima e, para sua surpresa, Razal, a fera carnívora do Vale do Leste vinha a uma velocidade incrível em sua direção, cortando o ar como uma lança e fazendo um barulho absurdo ao criar um vácuo em seu rastro. Estava a poucos centímetros do impacto quando Liko saltou para o lado e, com um enorme estrondo, a criatura bateu no chão, levantando uma onda de fumaça.

                – Sua sorte não durará pra sempre, Velkyr! – Rugiu a besta com uma voz demoníaca, erguendo-se com dificuldade sobre as patas negras e musculosas. – Você falhará! – Então uma torrente de luz avermelhada jorrou da boca de Razal em direção a Liko e ela, tentando se defender, saltou novamente, com graça e velocidade incríveis, girando no ar.

                Porém o cansaço imprimiu na Velkyr sua marca e em determinado momento suas pernas fraquejaram, permitindo que o raio de Razal a atingisse antes que a fera fechasse a boca novamente. Ela foi jogada colina abaixo, mas levantou rapidamente. Tomou então uma das duas últimas poções que carregava e partiu novamente para cima do inimigo, o cajado místico em punho – a ponta encrustada de Kirisaly brilhando bravamente.

                Liko girou no ar mais uma vez. Pegando Razal quase de surpresa, conseguiu ficar sobre ele e ainda de cabeça pra baixo, ativou seu poder especial. – Gazen ihrut BAHRL! –, recitou. E uma luz azulada exalou da joia em seu cajado, paralisando Razal. Ao pusar ao seu lado, Liko apontou para ele a arma que empinhava, firmou os pés no chão e recitou o segundo encantamento: – Migen ner Razal TRARRAD! –  Nessa hora a luz azulada que paralisava Razal sumiu, mas ele só teve tempo de piscar os olhos porque logo em seguida um estrondoso relâmpago cor de safira saiu da ponta do cajado místico e atingiu-o em cheio nas costelas.

                A guerreira Velkyr sentiu suas energias se esvaindo enquanto o raio empurrava Razal com enorme violência até o pé da próxima colina, onde ele ficou fumegando quando Liko encerrou seu assalto.

Outros guerreiros se aproximavam para observar o combate. Liko estava com pouquíssima energia no momento, mas a batalha ainda não se encerrara. Ela correu até onde jazia seu inimigo e preparou-se para o golpe de misericórdia.

Razal tentou levantar, mas suas patas cederam. Uma mancha negra jazia na lateral de seu corpo no local atingido pelo raio mortífero de Liko. Suas asas também falharam, pendendo molemente no dorso e na lombar. Ele rugia com dificuldade e os dentes afiados continuavam à mostra, embora seus olhos estivessem prestes a se fechar.

– Maldita! – Urrou Razal, atacando com um novo raio vermelho de sua boca, mas Liko rebateu-o facilmente com um movimento de seu cajado. Os dois se encararam, exaustos, mas dispostos a ir até o fim. – Há muito tempo eu domino as Vale do Leste, mas nunca vi um guerreiro chegar tão perto de me derrotar como você, Velkyr.

– Você já foi derrotado, Razal. Entregue sua essência!

RAAAARL! – Respondeu a besta, depois cuspiu muito sangue. – Essa área é sua, mas em breve aparecerá alguém para toma-la, assim como você a está tomando de mim agora. – Razal fechou os olhos e seu corpo começou a inchar, e foi crescendo cada vez mais, até que rapidamente seus membros, sua cabeça, calda e asas ficaram ridiculamente desproporcionais.

Os sentidos de Liko ficaram em alerta, e ela girou o cajado no ar à sua frente – a pedra de Kirisaly deixou um rastro de luz que se solidificou, formando um escudo. Os guerreiros correram para trás das árvores e rochas mais próximas, alarmados pela atitude da lutadora que agora admiravam e respeitavam.

Razal então explodiu, gerando uma onda de impacto esférica que se expandiu ao seu redor, varrendo do ambiente rochas, criaturas pequenas e até mesmo as folhas das árvores mais próximas. A luz projetada foi suprema – durante os poucos segundos que durou a explosão, não foi possível enxergar nada. O som produzido foi um zumbido grave, enlouquecedor. Liko sentiu mais uma parte de sua vitalidade indo embora e tomou a última poção. Pediu às divindades de Shenwe que seu escudo resistisse mais um pouco; sem ele já estaria destruída!

Enfim, no cenário de devastação deixado por Razal, brilhava agora um grande orbe vermelho a quase um metro do chão. Liko correu rapidamente até ele, pois sabia que se outro guerreiro estivesse por perto a essência de seu inimigo poderia ser facilmente roubada. Suas forças já estavam no fim quando a luz de Kirisaly em seu cajado se apagou.

Aliviada por não ver ninguém por perto, a Velkyr estendeu os braços e absorveu o orbe. Nesse momento seu corpo foi tomado por uma luz intensa e sua armadura se modificou. Ela sentiu o poder circular por todo seu ser e chegar até o cajado místico, onde revolveu intensamente, transformando-o também.

Parabéns, Liko! Você passou de Velkyr a Deidade Média. Confira seus novos poderes e não deixe de equipá-los. Derrotando Razal do Vale do Leste você obteve: 21 garras de Misryl, 2 mandíbulas de Misryl e 3.000 Guildes. Sua energia e sua vitalidade foram completamente restauradas.

Yaaaarruuuuuuul! É isso aí! A Guerreira de Shenwe sai gloriosamente vitoriosa em mais uma batalha ééééépicaaaa...

Liko! Ordem! Se você ficar fazendo barulho desse jeito eu vou mandar você para a limpeza das pragas das raízes lodosas, está ouvindo? – Reclamou uma voz feminina e antiga de outro cômodo, aparentemente bem distante.

– Desculpa, mãe! – Pediu Liko, ainda com a voz vibrante de felicidade. Desde que adquiriu o simulador, suas tardes ganharam um novo sentido. Sua vida ganhou um novo sentido e nem ela mesma sabia em que nível.

Liko morava na floresta das Árvores Gigantes de Shenwe, no planeta AefiS. Era um lugar pacífico, onde os habitantes – na grande maioria do sexo feminino – habitavam as copas de enormes árvores. Sua mãe, a matriarca Dalima Or, era a líder desse povo milenar de hábitos bucólicos. O jogo Guerras Fantásticas fora presente por seu aniversário e ela nunca se sentira tão feliz.

Quando repôs o capacete do simulador, Liko viu um ser alado surgir no céu, planando, que depois desceu até ela e sacou um pergaminho que trazia numa bolsa rústica em suas costas.

– Mensagem do Administrador – disse o mensageiro alado –, deseja ouvi-la?

– Sim, claro! – Respondeu Liko, muito melhor agora com sua vitalidade e energia restauradas.

O mensageiro pousou os olhos no pergaminho, desenrolou-o, pigarreou e abriu o bico dourado para ler:

“Muito bem, guerreira! Estamos orgulhosos de ver alguém tão novo em Guerras Fantásticas chegando tão longe. Esta é uma saudação pessoal por seu desempenho admirável. Agora você é uma entre os três mestres de área de G. F., então estaremos dando um jantar em BerThorna para celebrar sua conquista para o qual somente você e os outros mestres estão convidados. Podemos utilizar sua localização para enviar a condução? Responda até o anoitecer no jogo por este mensageiro – eles não podem voar à noite!

Esperamos conhece-la em breve,
Equipe Guerras Fantásticas.”

             – Oh, não! – Disse Liko a si mesma, removendo o capacete do simulador e deixando-se cair em sua cama, de boca e olhos bem abertos. – Minha mãe nunca vai me deixar ir para tão longe!

                BerThorna era o centro comercial e político de AefiS. Assim como Shenwe, era uma das oito grandes regiões do planeta – a mais civilizada e tecnologicamente desenvolvida – e seu líder, Asfer, era o mais problemático de todos, envolvido em um grande número de casos muito complexos e explicados de maneiras muito duvidosas. A mãe de Liko, Dalima Or, era a matriarca líder de Shenwe, e tinha uma opinião muito negativa sobre o colega político. Liko já ouvira todo tipo de história a respeito, mas a vontade de ir conhecer a equipe desenvolvedora de Guerras Fantásticas e saber o que a história do jogo tinha a ver com sua vida geraram uma curiosidade que estava prestes a consumi-la!


                – Não importa, estou ficando sem tempo. Eu tenho que dar um jeito! – Concluiu. – Mãããe!

Continua...

sábado, 2 de novembro de 2013

Atualizado: O Príncipe do Apocalipse

Recentemente adicionei os capítulos 5 e 6 do Príncipe do Apocalipse, que já estava devendo há um tempo. Sei que pouquíssima gente se interessa pela história, mas enquanto eu tiver pelo menos 1 leitor, estarei dando o melhor de mim nas minhas histórias.

Para ler essa história, clique no banner ao lado ou aqui mesmo!
Obs.: palavrões, violência, sexo e drogas [+18]


Mixtape: Dream Kiss

Mais umaaaa! Essa custou, mas saiu perfeitinha como eu queria. Demorei pra achar uma música que fechasse a sequência, então One Republic surgiu pra me salvar. Infelizmente Major Lazer ficou de fora, mas talvez entre na próxima. Curtam aí!



Indico para: correr, pedalar, malhar, começar o dia, fazer faxina ou lavar a louça kkkkkkk



 Tracklist:

1 - Joywave - Tongues (ft. Kopps) (RAC Mix)
2 - Young And Beautiful - Lana Del Rey (Kaskade Mix)
3 - Daughter - Youth (Alle Farben remix)
4 - Safe and Sound - Capital Cities (Party Ghost Remix)
5 - One Republic - Counting Stars (HLM Remix)


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Conto: João Caminha




Um raio de sol pula da grande bola de fogo em que nasceu e, penetrando a atmosfera da Terra junto a vários outros, traz consigo uma onda de luz e calor que colide com o telhado de João. Quando o calor acumula-se o bastante, João aperta os olhos e levanta da cama com seu short de ursinho para abrir a janela.

Uma lufada de vento quase derruba o rapaz, que se apoia no parapeito e contempla a cidade diante de seus olhos. Gatos pulam de um telhado a outro, escorregando no lodo. Fios entre um poste e outro e varais abarrotados de lençóis e roupas íntimas compõem a gigantesca teia de aranha que une o lugar mais parecido com uma colcha de retalho que você já viu. Muito barulho sobe das ruas estreitas, assim como o calor e os aromas ricos em tempero e amaciante, e vão para cima entre os muros e as janelas, até se perderem no espaço.

João respira fundo e, inspirado pelo azul sobre sua cabeça, decide sair para dar uma volta. É seu primeiro ano naquela cidade e ele acredita que finalmente se encontrou. Diante do espelho, passa uma escovinha de plástico nos cabelos, alisa a barba e pinga o perfume de um vidrinho nas pontas dos dedos, que depois passa atrás das orelhas e nos pulsos. Aí ajusta o relógio no braço magro e cabeludo, ensaca a camisa de botão, estufa o peito e, quando o vemos, já está caminhando pela calçada.

As casas projetam uma sombra agradável sobre a rua inteira, que mesmo cheia de gente, ainda consegue ser fresca. Ele cumprimenta a vizinha da frente, que pergunta por seu gato pela milésima vez: “Cadê Xuxí?”. O bicho sumira havia mais de dois meses, mas ele não se incomodava nem um pouco em responder que achava que Sushi havia arrumado uma namorada. Ele não.

Namorada João não tinha mais, mas vivia se apaixonando. Eram paixões de quinze minutos, com todos os estágios: encantava-se por essas moças, projetava nelas seus ideais e imaginava futuros prósperos com casas, filhos, carros, cachorros e sexo todas as noites. Depois que as via partir, sentia seu coração despedaçando. Então remendava o que sobrava e, no dia seguinte, fazia tudo novamente. É claro que em nenhuma dessas ocasiões ele chegava sequer a falar com as donzelas em questão. Tudo era psicológico.

Era isso que sua mãe costumava dizer de suas dores de cabeça, febres e enjoos quando, na infância, tentava justificar sua relutância em ir pra escola. Lembra-se disso quando passa pela instituição onde agora trabalha como inspetor, mas está de folga. Esse novo emprego foi maravilhoso para João, pois lhe dera uma perspectiva dos alunos que o permitiu refletir sobre si mesmo. Fora do cerco medievalmente moralista dos professores e suas impenetráveis fortalezas (salas de aula), os mais jovens tinham assuntos e atitudes muito mais interessantes do que as matérias estudadas a força e os comportamentos impostos.

Mais adiante vê o Bar do Flamengo, onde aprendeu a beber sem vomitar e até mesmo a tragar os cigarros que fingia fumar só pela pose. Fizera amizade com um dos garçons e já tinha até uma conta. Olha para o lugarzinho com bons olhos. É como um refúgio na sexta-feira, quando chega do trabalho. A cerveja gelada desce por sua garganta como um milagre curando as chagas do mundo.

A independência lhe é de profundo agrado. Uma coisa recém-conquistada que lhe dá muito o que pensar durante o dia, garantindo-lhe um sono tranquilo à noite. João é livre como os passarinhos. Talvez até mais, por não precisar voar em formação V como as pessoas que via no trabalho, que vira passar por sua vida inteira.

Chegando à pracinha, faz questão de passar por um grupo de pombos que numa confusa revoada, deixam o lugar – inclusive cheio de bosta. “Qual é mesmo o coletivo de pássaro? Cardume? Não, isso é de abelha” João ri sozinho. Senta por ali sem escolher muito e observa uma joaninha – faz tempo que não via uma dessas – andando sem rumo numas folhas. Está mais acostumado a ver os soldadinhos, mas hoje não tem nenhum. Há uns garotos jogando futebol. Parece até que nesse país ninguém sabe jogar outra coisa, pensa.

Planeja ver um filme mais tarde e encontrar com uns amigos pra beber alguma coisa. Domingo vai ter praia e depois uma macarronada na casa de sua mãe, que já não vê há uns quinze dias.

Ele respira fundo pra absorver seja lá o que for que deixa aquelas plantas tão radiantes, e fecha os olhos. Ele se dá esse minuto de babaquice, até porque já passou pelo suficiente na vida pra aprender a ignorar a opinião alheia. Tudo que vê agora é o laranja atrás de suas pálpebras contra o sol. Aquilo é até bom. Começa a viajar dentro da própria cabeça.

- João? – Uma sombra cobre seu sol.

- Hã? – João tenta recuperar a visão fazendo uma careta. A silhueta de uma moça muito bonita, de cabelos compridos, óculos de sol pendurados no decote, uma chave de carro numa mão e um menininho loiro segurando a outra. – Sandra?

- Ah, é você mesmo! – Ela o abraça pelo pescoço, depois, num movimento ninja, agarra novamente a mão do menino como se segurasse um balão prestes a subir e sumir no céu. – Menino, quase não te reconheci com essa barba! Ta parecendo um remanescente de Woodstock!

João se ajeita no banco. – Oi, Sandra. Tudo bem?

- Tudo ótimo. Olha, esse aqui é o meu filho, Anderson. Deixa eu te apresentar o pai dele – ela joga uma mecha clareada pra trás da orelha e grita: “Mozão, vem aqui conhecer uma pessoa!”

Tem um monte de homens na direção que ela chamou, João nem quer ver qual é o que se chama Mozão.

- Ai, eu tenho tanta coisa pra te contar – ela vai logo se sentando. – Casei ano passado, foi uma festa tão linda! Eu até teria te mandado um convite, mas você sumiu! Depois que eu me formei em administração eu conheci esse cara lindo – sem ofensa, é claro que você não sente mais nada por mim, né? – daí a gente viajou pra Itália, isso na lua de mel, mas eu quis conhecer Paris, Londres, Lisboa, foi tudo de bom. Agora a gente ta morando a dez minutos da praia. Eu nem acredito, parece um sonho! Faz só um ano que a gente se viu, mas dá a impressão de que faz tanto tempo, né?

João repara que o sol se escondeu atrás de uma nuvem e que o céu está começando a ficar cinza.

Sandra parece deslocada naquela praça, pois ao contrário dela, o lugar é meio decrépito: rachaduras no chão, uns vira-latas aqui e ali, até bosta de pombo tem, quase formando um tapete sob seus pés. Mozão e o carrão que os trouxe estão diante da agência do banco e ele tem cara de gerente. Enfim...

- Mas me fala de você – Sandra insiste na conversa. – Como é que tá sua vida, o que você tem feito, tal...?

- Eu?

- Sim!

- Eu, nada.



Gilson França, 01 de Novembro de 2013


Imagem: Innsbruck by Pajunen

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Cortejo, desconserto



Existe no Reino animal uma prática comum a quase todas as espécies, inclusive os seres humanos, que precede o acasalamento e é um fator determinante na escolha dos parceiros, especialmente realizada em situações macho x fêmea. Ela se dá através de um ritual, muitas vezes interpretado como dança, denominado como cortejo. Trata-se de movimentos exóticos, muitas vezes associado a sons específicos produzidos pelo macho para atrair a atenção das disputadas fêmeas de cada espécie.

Temos como exemplo o pavão que abre sua cauda exuberante em leque, entre outros que, há milhões de anos repetem o rito geração após geração, para suas parceiras em potencial.

Os seres humanos, por sua vez, criativos como são, de maneira até inexorável, também têm suas maneiras de cortejarem-se uns aos outros; seja por meio de palavras, linguagem corporal ou outras atitudes, com as quais tentam mostrar que são adequados ou os melhores parceiros potenciais para as fêmeas.

E hoje, desrespeitando minha razão e lógica, consciente de que não sou um animal irracional – leia-se como racional aquele que pode controlar seus instintos (não quero dizer com isso, permanentemente) – fui, em minha posição de macho da espécie, tentar cortejar minha fêmea. Mas ah, meus amigos, oh, meus inimigos, como fui ingênuo! Os tempos são outros, as mentes são outras e o pior: a multiplicidade das interpretações humanas é, na melhor das hipóteses, um perigo.

Ao me oferecer para pagar a conta da lanchonete (eis aqui o cortejo), fui interrompido bruscamente por minha fêmea, que em um relâmpago de fúria, negou meu gesto e, num brado retumbante, disse-me: “eu não dependo de você para nada!”.

E daí? Daí que eu fiquei pasmo, estarrecido com a situação, e liguei-me no modo automático enquanto meu cérebro guardava a informação para digerir depois do sanduíche com guaraná.

Ainda bem que era Subway! Um McDonald’s teria entupido-me as artérias e congestionado-me as sinapses!, pensei.

Ela não depende de mim para nada. Não vou me questionar a respeito do que venha a ser o nada em sua cabeça, pois o ponto aqui não é este. O que venho falar é que a ideologia feminista dos nossos tempos encontra-se em uma situação crítica de alienação que se reflete de maneira extremamente negativa nas relações interpessoais.


Ora, nem todo homem que dá um presente a sua mulher deseja subjuga-la. Nem toda mulher que se dispõe a demonstrar gratidão é submissa. Que sociedade é essa que enxerga tudo tão extremamente? Que lógica medieval é essa a do céu ou inferno, do oito ou oitenta? Não sei de mais nada.

Imagem: Peacock by jele


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Além do espelho


Eu tenho observado as pessoas. Trata-se de momentos em que eu sou, de certa forma, obrigado a isso, como enquanto ando de ônibus e não há para onde mais olhar. Quando elas são a coisa mais interessante para se ver. Especialmente as mulheres. As pessoas mais comuns. Quando penso sobre elas, como aparentam estar enquanto as observo, fico abismado com os padrões de aceitabilidade que eu estabeleço para mim mesmo. Pergunto-me como podem viver consigo mesmas sem tantas das coisas que me obrigo ter e ser. Como conseguem levar uma vida tão ordinária e sustentar discursos tão superficiais, como mantêm suas identidades de micro-engrenagens sociais tão resignadamente. Por um momento até as invejo. Em seguida mudo de perspectiva, restabeleço meus high standards e faço um rápido calculo de equivalência de valores. Então percebo que elas não estão tão mal assim e relaxo. Existe um mundo diferente para cada um de nós, com um paraíso e um inferno personalizados.

Imagem: Piano playerby ~sican

domingo, 18 de agosto de 2013

Shingeki no Kyojin (Attack on Titan): Reflexão



Uma coisa que tem me dado muito prazer ultimamente é assistir Shingeki no Kyojin. É muito bom aguardar a semana passar para, no sábado à noite ou no domingo de manhã, me juntar a várias pessoas no mundo com o intuito de acompanhar uma coisa tão emocionante quanto essa série!

Ontem mesmo quando estava assistindo o episódio 19 (de 25), eu pude sentir a emoção de estar – mesmo sozinho no quarto – em meio a milhares de pessoas vendo a luta insana dos humanos contra os titãs. Isso tudo já é muito bom, mas uma maneira ainda melhor de se aproveitar qualquer história é refletindo. Nesse caso, eu proponho os seguintes questionamentos: “quem ou o quê são os titãs da sua vida? Quais são as suas muralhas? O que você está fazendo para se libertar?”

Vejo os titãs como aquelas dificuldades enormes e assustadoras, mas que não são invencíveis. Lembro-me dos problemas que não se pode enfrentar sozinho nem na base do impulso. Eles têm um calcanhar de aquiles! Na verdade, uma "nuca"!



As muralhas são um elemento paradoxal para os personagens, que se encontram divididos entre aqueles que as vêem como uma proteção (a grande maioria) e aqueles que as vêem como um limite. Todos temos nossas muralhas, e não cabe a ninguém além de nós mesmos decidir qual seu verdadeiro papel. E digo mais: as muralhas mais altas são as psicológicas.



A despeito do banho de sangue que pode assustar alguns, valores como coragem, sabedoria, determinação e força são explorados em seus limites. Mas na minha opinião, nada disso é tão marcante no enredo quanto os sacrifícios. Para que se consiga algo, é necessário que haja sacrifícios, isso todo mundo sabe. Mas o que SNK acrescenta a esse pensamento é que deve-se honrar aquilo e/ou aqueles que deixamos para trás na busca por algo maior.