Imagem: Never Let Go by ReyeD33
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Pra fora da toca do coelho branco
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Sinestesia Fantástica
Mesmo imerso num mar de incertezas, ao passo que as cinzas são varridas de minhas penas pelo vento, como uma mariposa à noite, vejo-me atraído por uma luz azulada que poderá me eletrocutar. Mas talvez não seja noite. Talvez eu esteja em uma caverna e esse brilho venha de uma fresta no teto pela qual poderei escapar. Devo ficar atento à presença de vento também. Minhas asas cansadas já não têm tanta sensibilidade.
Ah! Que sabor terá o ar quente do dia, depois de uma noite tão longa e gélida? Que promessas estarão codificadas nas nuvens? Eu quero essa chuva sobre mim. Sinto-me preparado para essa sinestesia fantástica! Ver o cenário se distorcendo a minha volta, cobrindo longas distâncias em alta velocidade, de braços abertos, indo e voltando... a sensação de que nada é impossível... o conforto de ver as novas folhas de um verde luminoso lançando sua sombra sobre as que secam ao chão, sendo absorvidas e se transformando em nutrientes...
É verdade que, num piscar de olhos estou de volta à escuridão. Mas esta não é mais completa. E mais: estou no meu caminho para longe dela.
Pra ler ouvindo:
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Uma noite a mais, um mal a menos
Dormir, mais uma vez, enfim. O desejado repouso mais que um
alívio para o corpo que pesa irredutível sobre os ossos, é uma trégua de mim
mesmo. Ando chato ultimamente, muito preocupado, exagerando em todas as doses,
esquecendo-me da sagrada homeopatia. Temendo a sombra lançada pelo tsunami de
expectativas sobre o mundo e sobre mim, vou me ajeitando de um lado para outro
do colchão, esperando o universo escurecer e silenciar ao meu redor. A inconsciência
é doce e breve. Mesmo sabendo que o sol virá para acabar com a minha festa no
dia seguinte, não consigo evitar o mergulho – e que mergulho! – no meu mindinho
de perfeição onírica. Jack Sawyer queria saber por que a vida tem sempre de exigir
tanto e dar tão pouco. Partilho de sua dúvida, mas estou me colocando numa zona
de conforto sob meus cobertores. Agora eu quero simplesmente parar de fazer a
coisa que eu faço mais do que respirar e dizer até logo aos meus numerosos
pensamentos. Porque nada se resolverá nem se complicará enquanto eu estiver na
cama.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
AEFIS - A Guerreira de Shenwe
Liko
corria o mais rápido que podia, subindo uma colina atrás de uma fera imensa. Estava
cansada por causa das batalhas que travara contra alguns guerreiros
anteriormente, além disso, seus poderes mágicos e sua vitalidade estavam
baixos, mas se conseguisse completar essa missão com certeza evoluiria para
algo muito mais poderoso. Empunhando seu cetro místico equipado com um tipo
raro de Kirisaly, encarou o céu da noite e buscou nas estrelas o ânimo que
começava a lhe faltar.
Chegando
ao topo da colina, a Guerreira Velkyr (sua categoria) ficou aflita por não ver
sinal da fera que perseguia. Olhou para os lados e nada, virou-se de repente e
tudo que viu foi a vasta extensão do Vale do Leste e suas centenas de elevações
banhadas pelo brilho da lua.
Para onde foi aquele Razal?, pensou.
Mas
um som acima de sua cabeça a fez olhar para cima e, para sua surpresa, Razal, a
fera carnívora do Vale do Leste vinha a uma velocidade incrível em sua direção,
cortando o ar como uma lança e fazendo um barulho absurdo ao criar um vácuo em
seu rastro. Estava a poucos centímetros do impacto quando Liko saltou para o
lado e, com um enorme estrondo, a criatura bateu no chão, levantando uma onda
de fumaça.
–
Sua sorte não durará pra sempre, Velkyr! – Rugiu a besta com uma voz demoníaca,
erguendo-se com dificuldade sobre as patas negras e musculosas. – Você falhará!
– Então uma torrente de luz avermelhada jorrou da boca de Razal em direção a
Liko e ela, tentando se defender, saltou novamente, com graça e velocidade
incríveis, girando no ar.
Porém
o cansaço imprimiu na Velkyr sua marca e em determinado momento suas pernas
fraquejaram, permitindo que o raio de Razal a atingisse antes que a fera
fechasse a boca novamente. Ela foi jogada colina abaixo, mas levantou
rapidamente. Tomou então uma das duas últimas poções que carregava e partiu
novamente para cima do inimigo, o cajado místico em punho – a ponta encrustada
de Kirisaly brilhando bravamente.
Liko
girou no ar mais uma vez. Pegando Razal quase de surpresa, conseguiu ficar
sobre ele e ainda de cabeça pra baixo, ativou seu poder especial. – Gazen ihrut BAHRL! –, recitou. E uma luz
azulada exalou da joia em seu cajado, paralisando Razal. Ao pusar ao seu lado,
Liko apontou para ele a arma que empinhava, firmou os pés no chão e recitou o
segundo encantamento: – Migen ner Razal
TRARRAD! – Nessa hora a luz azulada
que paralisava Razal sumiu, mas ele só teve tempo de piscar os olhos porque
logo em seguida um estrondoso relâmpago cor de safira saiu da ponta do cajado
místico e atingiu-o em cheio nas costelas.
A
guerreira Velkyr sentiu suas energias se esvaindo enquanto o raio empurrava
Razal com enorme violência até o pé da próxima colina, onde ele ficou fumegando
quando Liko encerrou seu assalto.
Outros guerreiros
se aproximavam para observar o combate. Liko estava com pouquíssima energia no
momento, mas a batalha ainda não se encerrara. Ela correu até onde jazia seu
inimigo e preparou-se para o golpe de misericórdia.
Razal tentou
levantar, mas suas patas cederam. Uma mancha negra jazia na lateral de seu
corpo no local atingido pelo raio mortífero de Liko. Suas asas também falharam,
pendendo molemente no dorso e na lombar. Ele rugia com dificuldade e os dentes
afiados continuavam à mostra, embora seus olhos estivessem prestes a se fechar.
– Maldita! –
Urrou Razal, atacando com um novo raio vermelho de sua boca, mas Liko rebateu-o
facilmente com um movimento de seu cajado. Os dois se encararam, exaustos, mas
dispostos a ir até o fim. – Há muito tempo eu domino as Vale do Leste, mas
nunca vi um guerreiro chegar tão perto de me derrotar como você, Velkyr.
– Você já foi
derrotado, Razal. Entregue sua essência!
– RAAAARL! – Respondeu a besta, depois
cuspiu muito sangue. – Essa área é sua, mas em breve aparecerá alguém para toma-la,
assim como você a está tomando de mim agora. – Razal fechou os olhos e seu
corpo começou a inchar, e foi crescendo cada vez mais, até que rapidamente seus
membros, sua cabeça, calda e asas ficaram ridiculamente desproporcionais.
Os sentidos de
Liko ficaram em alerta, e ela girou o cajado no ar à sua frente – a pedra de
Kirisaly deixou um rastro de luz que se solidificou, formando um escudo. Os guerreiros
correram para trás das árvores e rochas mais próximas, alarmados pela atitude
da lutadora que agora admiravam e respeitavam.
Razal então
explodiu, gerando uma onda de impacto esférica que se expandiu ao seu redor,
varrendo do ambiente rochas, criaturas pequenas e até mesmo as folhas das
árvores mais próximas. A luz projetada foi suprema – durante os poucos segundos
que durou a explosão, não foi possível enxergar nada. O som produzido foi um
zumbido grave, enlouquecedor. Liko sentiu mais uma parte de sua vitalidade indo
embora e tomou a última poção. Pediu às divindades de Shenwe que seu escudo
resistisse mais um pouco; sem ele já estaria destruída!
Enfim, no
cenário de devastação deixado por Razal, brilhava agora um grande orbe vermelho
a quase um metro do chão. Liko correu rapidamente até ele, pois sabia que se
outro guerreiro estivesse por perto a essência de seu inimigo poderia ser
facilmente roubada. Suas forças já estavam no fim quando a luz de Kirisaly em
seu cajado se apagou.
Aliviada por
não ver ninguém por perto, a Velkyr estendeu os braços e absorveu o orbe. Nesse
momento seu corpo foi tomado por uma luz intensa e sua armadura se modificou. Ela
sentiu o poder circular por todo seu ser e chegar até o cajado místico, onde
revolveu intensamente, transformando-o também.
Parabéns, Liko! Você passou de Velkyr a Deidade Média. Confira seus novos poderes e não deixe de equipá-los. Derrotando Razal
do Vale do Leste você obteve: 21
garras de Misryl, 2 mandíbulas de Misryl e
3.000 Guildes. Sua energia e sua
vitalidade foram completamente restauradas.
– Yaaaarruuuuuuul! É isso aí! A Guerreira
de Shenwe sai gloriosamente vitoriosa em mais uma batalha ééééépicaaaa...
– Liko! Ordem! Se você ficar fazendo barulho
desse jeito eu vou mandar você para a limpeza das pragas das raízes lodosas,
está ouvindo? – Reclamou uma voz feminina e antiga de outro cômodo,
aparentemente bem distante.
– Desculpa,
mãe! – Pediu Liko, ainda com a voz vibrante de felicidade. Desde que adquiriu o
simulador, suas tardes ganharam um novo sentido. Sua vida ganhou um novo sentido e nem ela mesma sabia em que nível.
Liko morava na
floresta das Árvores Gigantes de Shenwe, no planeta AefiS. Era um lugar
pacífico, onde os habitantes – na grande maioria do sexo feminino – habitavam as
copas de enormes árvores. Sua mãe, a matriarca Dalima Or, era a líder desse
povo milenar de hábitos bucólicos. O jogo Guerras Fantásticas fora presente por
seu aniversário e ela nunca se sentira tão feliz.
Quando repôs o
capacete do simulador, Liko viu um ser alado surgir no céu, planando, que depois
desceu até ela e sacou um pergaminho que trazia numa bolsa rústica em suas
costas.
– Mensagem do
Administrador – disse o mensageiro alado –, deseja ouvi-la?
– Sim, claro! –
Respondeu Liko, muito melhor agora com sua vitalidade e energia restauradas.
O mensageiro
pousou os olhos no pergaminho, desenrolou-o, pigarreou e abriu o bico dourado
para ler:
“Muito bem, guerreira! Estamos orgulhosos de
ver alguém tão novo em Guerras Fantásticas chegando tão longe. Esta é uma
saudação pessoal por seu desempenho admirável. Agora você é uma entre os três
mestres de área de G. F., então estaremos dando um jantar em BerThorna para
celebrar sua conquista para o qual somente você e os outros mestres estão convidados.
Podemos utilizar sua localização para enviar a condução? Responda até o
anoitecer no jogo por este mensageiro – eles não podem voar à noite!
Esperamos conhece-la em breve,
Equipe Guerras Fantásticas.”
–
Oh, não! – Disse Liko a si mesma, removendo o capacete do simulador e
deixando-se cair em sua cama, de boca e olhos bem abertos. – Minha mãe nunca
vai me deixar ir para tão longe!
BerThorna
era o centro comercial e político de AefiS. Assim como Shenwe, era uma das oito
grandes regiões do planeta – a mais civilizada e tecnologicamente desenvolvida –
e seu líder, Asfer, era o mais problemático de todos, envolvido em um grande
número de casos muito complexos e explicados de maneiras muito duvidosas. A mãe
de Liko, Dalima Or, era a matriarca líder de Shenwe, e tinha uma opinião muito
negativa sobre o colega político. Liko já ouvira todo tipo de história a
respeito, mas a vontade de ir conhecer a equipe desenvolvedora de Guerras
Fantásticas e saber o que a história do jogo tinha a ver com sua vida geraram
uma curiosidade que estava prestes a consumi-la!
–
Não importa, estou ficando sem tempo. Eu tenho que dar um jeito! – Concluiu. – Mãããe!
Continua...
sábado, 2 de novembro de 2013
Atualizado: O Príncipe do Apocalipse
Recentemente adicionei os capítulos 5 e 6 do Príncipe do Apocalipse, que já estava devendo há um tempo. Sei que pouquíssima gente se interessa pela história, mas enquanto eu tiver pelo menos 1 leitor, estarei dando o melhor de mim nas minhas histórias.
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Obs.: palavrões, violência, sexo e drogas [+18]
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Mixtape: Dream Kiss
Mais umaaaa! Essa custou, mas saiu perfeitinha como eu queria. Demorei pra achar uma música que fechasse a sequência, então One Republic surgiu pra me salvar. Infelizmente Major Lazer ficou de fora, mas talvez entre na próxima. Curtam aí!
Tracklist:
1 - Joywave - Tongues (ft. Kopps) (RAC Mix)
2 - Young And Beautiful - Lana Del Rey (Kaskade Mix)
3 - Daughter - Youth (Alle Farben remix)
4 - Safe and Sound - Capital Cities (Party Ghost Remix)
5 - One Republic - Counting Stars (HLM Remix)
Indico para: correr, pedalar, malhar, começar o dia, fazer faxina ou lavar a louça kkkkkkk
Tracklist:
1 - Joywave - Tongues (ft. Kopps) (RAC Mix)
2 - Young And Beautiful - Lana Del Rey (Kaskade Mix)
3 - Daughter - Youth (Alle Farben remix)
4 - Safe and Sound - Capital Cities (Party Ghost Remix)
5 - One Republic - Counting Stars (HLM Remix)
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Conto: João Caminha
Um raio de sol pula da grande bola de fogo em que nasceu e,
penetrando a atmosfera da Terra junto a vários outros, traz consigo uma onda de
luz e calor que colide com o telhado de João. Quando o calor acumula-se o bastante,
João aperta os olhos e levanta da cama com seu short de ursinho para abrir a
janela.
Uma lufada de vento quase derruba o rapaz, que se apoia no
parapeito e contempla a cidade diante de seus olhos. Gatos pulam de um telhado
a outro, escorregando no lodo. Fios entre um poste e outro e varais abarrotados
de lençóis e roupas íntimas compõem a gigantesca teia de aranha que une o lugar
mais parecido com uma colcha de retalho que você já viu. Muito barulho sobe das
ruas estreitas, assim como o calor e os aromas ricos em tempero e amaciante, e
vão para cima entre os muros e as janelas, até se perderem no espaço.
João respira fundo e, inspirado pelo azul sobre sua cabeça,
decide sair para dar uma volta. É seu primeiro ano naquela cidade e ele
acredita que finalmente se encontrou. Diante do espelho, passa uma escovinha de
plástico nos cabelos, alisa a barba e pinga o perfume de um vidrinho nas pontas
dos dedos, que depois passa atrás das orelhas e nos pulsos. Aí ajusta o relógio
no braço magro e cabeludo, ensaca a camisa de botão, estufa o peito e, quando o
vemos, já está caminhando pela calçada.
As casas projetam uma sombra agradável sobre a rua inteira,
que mesmo cheia de gente, ainda consegue ser fresca. Ele cumprimenta a vizinha
da frente, que pergunta por seu gato pela milésima vez: “Cadê Xuxí?”. O bicho
sumira havia mais de dois meses, mas ele não se incomodava nem um pouco em
responder que achava que Sushi havia
arrumado uma namorada. Ele não.
Namorada João não tinha mais, mas vivia se apaixonando. Eram
paixões de quinze minutos, com todos os estágios: encantava-se por essas moças,
projetava nelas seus ideais e imaginava futuros prósperos com casas, filhos,
carros, cachorros e sexo todas as noites. Depois que as via partir, sentia seu
coração despedaçando. Então remendava o que sobrava e, no dia seguinte, fazia
tudo novamente. É claro que em nenhuma dessas ocasiões ele chegava sequer a
falar com as donzelas em questão. Tudo era psicológico.
Era isso que sua mãe costumava dizer de suas dores de cabeça,
febres e enjoos quando, na infância, tentava justificar sua relutância em ir
pra escola. Lembra-se disso quando passa pela instituição onde agora trabalha
como inspetor, mas está de folga. Esse novo emprego foi maravilhoso para João,
pois lhe dera uma perspectiva dos alunos que o permitiu refletir sobre si
mesmo. Fora do cerco medievalmente moralista dos professores e suas impenetráveis
fortalezas (salas de aula), os mais jovens tinham assuntos e atitudes muito
mais interessantes do que as matérias estudadas a força e os comportamentos impostos.
Mais adiante vê o Bar do Flamengo, onde aprendeu a beber sem
vomitar e até mesmo a tragar os cigarros que fingia fumar só pela pose. Fizera amizade
com um dos garçons e já tinha até uma conta. Olha para o lugarzinho com bons
olhos. É como um refúgio na sexta-feira, quando chega do trabalho. A cerveja
gelada desce por sua garganta como um milagre curando as chagas do mundo.
A independência lhe é de profundo agrado. Uma coisa recém-conquistada
que lhe dá muito o que pensar durante o dia, garantindo-lhe um sono tranquilo à
noite. João é livre como os passarinhos. Talvez até mais, por não precisar voar
em formação V como as pessoas que via no trabalho, que vira passar por sua vida
inteira.
Chegando à pracinha, faz questão de passar por um grupo de
pombos que numa confusa revoada, deixam o lugar – inclusive cheio de bosta. “Qual
é mesmo o coletivo de pássaro? Cardume? Não, isso é de abelha” João ri sozinho.
Senta por ali sem escolher muito e observa uma joaninha – faz tempo que não via
uma dessas – andando sem rumo numas folhas. Está mais acostumado a ver os
soldadinhos, mas hoje não tem nenhum. Há uns garotos jogando futebol. Parece até que nesse país ninguém sabe jogar
outra coisa, pensa.
Planeja ver um filme mais tarde e encontrar com uns amigos
pra beber alguma coisa. Domingo vai ter praia e depois uma macarronada na casa
de sua mãe, que já não vê há uns quinze dias.
Ele respira fundo pra absorver seja lá o que for que deixa
aquelas plantas tão radiantes, e fecha os olhos. Ele se dá esse minuto de
babaquice, até porque já passou pelo suficiente na vida pra aprender a ignorar
a opinião alheia. Tudo que vê agora é o laranja atrás de suas pálpebras contra
o sol. Aquilo é até bom. Começa a viajar dentro da própria cabeça.
- João? – Uma sombra cobre seu sol.
- Hã? – João tenta recuperar a visão fazendo uma careta. A silhueta
de uma moça muito bonita, de cabelos compridos, óculos de sol pendurados no decote,
uma chave de carro numa mão e um menininho loiro segurando a outra. – Sandra?
- Ah, é você mesmo! – Ela o abraça pelo pescoço, depois, num
movimento ninja, agarra novamente a mão do menino como se segurasse um balão
prestes a subir e sumir no céu. – Menino, quase não te reconheci com essa
barba! Ta parecendo um remanescente de Woodstock!
João se ajeita no banco. – Oi, Sandra. Tudo bem?
- Tudo ótimo. Olha, esse aqui é o meu filho, Anderson. Deixa
eu te apresentar o pai dele – ela joga uma mecha clareada pra trás da orelha e
grita: “Mozão, vem aqui conhecer uma pessoa!”
Tem um monte de homens na direção que ela chamou, João nem quer
ver qual é o que se chama Mozão.
- Ai, eu tenho tanta coisa pra te contar – ela vai logo se
sentando. – Casei ano passado, foi uma festa tão linda! Eu até teria te mandado
um convite, mas você sumiu! Depois que eu me formei em administração eu conheci
esse cara lindo – sem ofensa, é claro que você não sente mais nada por mim, né?
– daí a gente viajou pra Itália, isso na lua de mel, mas eu quis conhecer Paris,
Londres, Lisboa, foi tudo de bom. Agora a gente ta morando a dez minutos da
praia. Eu nem acredito, parece um sonho! Faz só um ano que a gente se viu, mas
dá a impressão de que faz tanto tempo, né?
João repara que o sol se escondeu atrás de uma nuvem e que o
céu está começando a ficar cinza.
Sandra parece deslocada naquela praça, pois ao contrário
dela, o lugar é meio decrépito: rachaduras no chão, uns vira-latas aqui e ali,
até bosta de pombo tem, quase formando um tapete sob seus pés. Mozão e o carrão
que os trouxe estão diante da agência do banco e ele tem cara de gerente.
Enfim...
- Mas me fala de você – Sandra insiste na conversa. – Como é
que tá sua vida, o que você tem feito, tal...?
- Eu?
- Sim!
- Eu, nada.
Gilson França, 01 de
Novembro de 2013
Imagem: Innsbruck by Pajunen
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Cortejo, desconserto
Existe no
Reino animal uma prática comum a quase todas as espécies, inclusive os seres
humanos, que precede o acasalamento e é um fator determinante na escolha dos
parceiros, especialmente realizada em situações macho x fêmea. Ela se dá
através de um ritual, muitas vezes interpretado como dança, denominado como
cortejo. Trata-se de movimentos exóticos, muitas vezes associado a sons
específicos produzidos pelo macho para atrair a atenção das disputadas fêmeas
de cada espécie.
Temos
como exemplo o pavão que abre sua cauda exuberante em leque, entre outros que,
há milhões de anos repetem o rito geração após geração, para suas parceiras em
potencial.
Os seres humanos, por sua vez, criativos como
são, de maneira até inexorável, também têm suas maneiras de cortejarem-se uns
aos outros; seja por meio de palavras, linguagem corporal ou outras atitudes, com
as quais tentam mostrar que são adequados ou os melhores parceiros potenciais
para as fêmeas.
E hoje,
desrespeitando minha razão e lógica, consciente de que não sou um animal
irracional – leia-se como racional aquele que pode controlar seus instintos
(não quero dizer com isso, permanentemente) – fui, em minha posição de macho da
espécie, tentar cortejar minha fêmea. Mas ah, meus amigos, oh, meus inimigos,
como fui ingênuo! Os tempos são outros, as mentes são outras e o pior: a
multiplicidade das interpretações humanas é, na melhor das hipóteses, um perigo.
Ao me oferecer
para pagar a conta da lanchonete (eis aqui o cortejo), fui interrompido
bruscamente por minha fêmea, que em um relâmpago de fúria, negou meu gesto e,
num brado retumbante, disse-me: “eu não dependo de você para nada!”.
E daí? Daí
que eu fiquei pasmo, estarrecido com a situação, e liguei-me no modo automático
enquanto meu cérebro guardava a informação para digerir depois do sanduíche com
guaraná.
Ainda bem que era
Subway! Um McDonald’s teria entupido-me as artérias e congestionado-me as
sinapses!, pensei.
Ela não
depende de mim para nada. Não vou me questionar a respeito do que venha a ser o
nada em sua cabeça, pois o ponto aqui não é este. O que venho falar é que a
ideologia feminista dos nossos tempos encontra-se em uma situação crítica de
alienação que se reflete de maneira extremamente negativa nas relações
interpessoais.
Ora, nem
todo homem que dá um presente a sua mulher deseja subjuga-la. Nem toda mulher
que se dispõe a demonstrar gratidão é submissa. Que sociedade é essa que
enxerga tudo tão extremamente? Que lógica medieval é essa a do céu ou inferno,
do oito ou oitenta? Não sei de mais nada.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Além do espelho
Imagem: Piano playerby ~sican
domingo, 18 de agosto de 2013
Shingeki no Kyojin (Attack on Titan): Reflexão
Uma coisa que tem me dado muito prazer ultimamente é assistir Shingeki no Kyojin. É muito bom aguardar a semana passar para, no sábado à noite ou no domingo de manhã, me juntar a várias pessoas no mundo com o intuito de acompanhar uma coisa tão emocionante quanto essa série!
Ontem mesmo quando estava assistindo o episódio 19 (de 25), eu pude sentir a emoção de estar – mesmo sozinho no quarto – em meio a milhares de pessoas vendo a luta insana dos humanos contra os titãs. Isso tudo já é muito bom, mas uma maneira ainda melhor de se aproveitar qualquer história é refletindo. Nesse caso, eu proponho os seguintes questionamentos: “quem ou o quê são os titãs da sua vida? Quais são as suas muralhas? O que você está fazendo para se libertar?”
Vejo os titãs como aquelas dificuldades enormes e assustadoras, mas que não são invencíveis. Lembro-me dos problemas que não se pode enfrentar sozinho nem na base do impulso. Eles têm um calcanhar de aquiles! Na verdade, uma "nuca"!
As muralhas são um elemento paradoxal para os personagens, que se encontram divididos entre aqueles que as vêem como uma proteção (a grande maioria) e aqueles que as vêem como um limite. Todos temos nossas muralhas, e não cabe a ninguém além de nós mesmos decidir qual seu verdadeiro papel. E digo mais: as muralhas mais altas são as psicológicas.
A despeito do banho de sangue que pode assustar alguns, valores como coragem, sabedoria, determinação e força são explorados em seus limites. Mas na minha opinião, nada disso é tão marcante no enredo quanto os sacrifícios. Para que se consiga algo, é necessário que haja sacrifícios, isso todo mundo sabe. Mas o que SNK acrescenta a esse pensamento é que deve-se honrar aquilo e/ou aqueles que deixamos para trás na busca por algo maior.
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